Dimas Gomez’s

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Biografia Duma Navalha

Por Dimas Gomez.

Um menino enfiou agulha na bunda do barbeiro, que rasgou o pescoço do cliente num grito de agonia traseira. O tal sumiu como um diabinho, que propositadamente obrasse a morte do homem engravatal. Este sorria no momento da desgraça inimaginável. O sorriso desceu vermelho para o pescoço e a boca se abriu num horror pela metade. Da outra metade só o Céu sabe – porque é pra lá que os sentimentos puros vão, mesmo os terríveis. A alma do homem e a outra metade do horror ficaram na navalha, que passou de barbeiro em barbeiro sem fazer barba direito (a alma do dandy não sabia fazer, apenas mandar), desgraçando todos os barbeiros pelos quais passava. A lâmina foi trocada diversas vezes, mas não se saciava; antes, ressentia. A alma do engravatado tomara gosto pelo sangue e, duras como a alma daquele pobre diabo, vivia a rasgar sorrisos com elas. Cada um desses profissionais – entre os quais Machado encontrou um homem sincero, finalmente apagando a lanterna de Diógenes –, enxergavam a maldição no salão de barbearia e lá mesmo largavam a navalha perniciosa, até que um desses profissionais, assustado, a atirou pela janela (defenestrou, se preferir).

Um malandro, que a encontrou desamparada no meio da rua, na vida rasgada que levava logo lhe deu serventia e percebeu a vocação da danadinha, que parecia viva! Tinha alma e princípios! Exceto com os medrosos e desesperados: esses ela rasgava sem piedade. Ela só poupava os valentes. Dava o susto e já valia. Valente que é valente sabe a hora de dar no pé. Então serviu bem por muito tempo, até que um dia a sorte trocou as navalhas e o malandro foi se barbear com a sua diaba. O espanto que o estrago provocado no pescoço do dono foi tanto, que superou o horror e libertou a alma do granfino. Brasileiramente apertaram-se as mãos (do jeito que podiam duas almas degoladas), se abraçaram e cada qual foi para seu lugar no outro mundo. Ouvi dizer que um foi parar num escritório eterno e outro numa prainha molíssima…

Por Dimas Gomez em 21 de fevereiro de 2008 às 12h24

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COMIA LÂMPADAS

 

Por Dimas Gomez.

Uma menina de linhas densas no rosto, de coração bom e de alegria simples. Um rosto redondo de lua, uns traços orientais. Abraçados, nos encostávamos. Tomava-a, ora pelas costas, toda tocando levemente, ora pelo lado, nos apoiando. Suprimia qualquer desejo. Um toque sensual nada obsceno. Do gosto do corpo amigo, sem malícia. Amigos de rara amizade. Viajávamos num ônibus para algum lugar ao norte do Estado. Goiás, talvez. Nos conhecemos naquela parada.

Entramos numa lojinha de conveniência. Em perfeita harmonia, escolhemos algumas guloseimas. Não me lembro bem, mas pagamos, ou paguei, em perfeito acordo de notas e moedas. Compramos também algumas lâmpadas: podia faltar luz na pousada.

Sentamos juntos, para o meio do ônibus. Algum tempo da partida, ela transbordava sexo. Levantou a saia curta. As coxas clarinhas, a púbis delicada. Meteu a mão, mexia e tocava. Era público! Decidi arranjar o banheiro do ônibus. Concordou transdoidepassivamente. Arranjei briga com o povo do fundão: Um cara tomara a minha vez na merda. Ralhei com outro. Você é folgado, hein cara? Não! Você é que é folgado, meu! Você se acha, hein? Não me achava: tinha certeza. E enfiei esta: todos têm direito de ser filho da puta. Sou filho da puta, e daí? Você por acaso não é? Sou mesmo. Disse mesmo. E tá: o bolo-fofo calou a boca. De volta ao meio do veículo, mal conseguindo, encontrei o lugar vazio. Fui até a frente. O motorista lambia aqueles seios gelatinosos e dirigia.

Saturnina e furiosamente arranquei-a da cabine. Sentei-a. Você gosta mais de mim do que eu mesma. Puxei o saco de comidas. Encarcerada entre a janela e meu aborrecimento, tentava escapar por ela, embora sem ao menos abrir. Ficou quieta e voou. Peguei uma lâmpada. Primeiro, quebrei a abóboda com os dentes. Saía o argônio rarefeito e entrava o oxigênio maléfico. Evitando o filamento, fui quebrando os pedaços de vidro finíssimo e frio, um sorvete de rara espécie, para não cortar a boca. Sem erro no procedimento, utilizava as partes duras da boca contra as pontas, e as curvas contra os arcos dos pedaços. Mastiguei bem. Cuidava pra não machucar o céu, e descuidava pra que machucasse a língua. Suavemente, engoli e ruidosamente me entretive, provando a bile entre uma lâmpada e outra que o gosto do vidro provocava na faringe, totalmente moído. Como restos das guloseimas, sobravam bases metálicas e filamentos.

 

Por Dimas Gomez em 17 de agosto de 2007 às 18h47

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