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Mendigo Bêbado Fodido
Amarguei uma hora ontem, com um mendigo no chão, na Rua Martins Fontes (entre o Bar Estadão e onde ficava o Diário Popular), no frio, no meio dos abutres.
O SAMU não vinha.
O cara é morador de rua, bebaço.
Um branquelo azedo bateu nele de dentro do carro, na Martins Fontes, e foi embora.
Caiu no meio da rua, imóvel e desacordado.
Sangrando horrores.
Arrastaram pra calçada.
Liguei pro SAMU.
Confirme telefone. Morador de rua. Bêbado. Vítima de violência. Batida na cabeça. Consciente.
Chamada de emergência. 54 chamadas de prioridade máxima na madrugada.
Falei com a polícia civil. Deu uma olhadinha e foi embora.
Falei com a PM. Esse cara sempre dá problema. “Você é médico por acaso? É da saúde, pra saber que é caso de SAMU?” O pior é que eu trabalho na Saúde, seu PM do caralho.
O mendigo levantou e me pediu um real. Neguei mesmo. Pra chegar em casa, dei 10 pro taxista.
— My name is Wilson. I am australian. I need two reals.
— Actually… are you a teacher two?
If I get these two scumbags, I’ll kick their asses.
Ninguém roubou o chinelo dele. Ninguém levou o radinho dele, nem o fone. Nem ele, nem o sangue, nem a garrafa de vinho. Minto, a garrafa de vinho sumiu. E sobrou a de água, com três dedos no fundo.
Muchedumbre colorada
Por Dimas Gomez.
Fomos encontrar uma terceira companhia. Erramos a estação como quem erra o sangue de veia, juntos como poucas vezes. Naquele instante, parei de ver o mundo. Monocromática, preta de pregas a saia e branca de pretos traços a camiseta, coloria-se levemente com uma fina blusinha branca de listas rojas y negras. Coisa de menininha. Sapatinho de boneca preto, enfeitada de meia arco-íris. Cabelos de psicodélico cobre. Desencontramos. Fomos para a estação Paraíso. Maltrapilho por dentro, bem arrumado por fora. Abarrotada, descemos a cumprir no pé. Dia de sol desagradável. Na saída, surpreendidos por morteiro que podia machucar um: algum idiota que não aceitava o arco-íris irradiante do dia que ela e a multidão viviam.
Em meio às monstruosidades daquela tarde exageradamente clara, redescobri como atingir a Paulista. Seguimos pela Avenida tomada de seres fantasmais, espectros insolentes do submundo, que emergiam para tomar o Mundo-do-sol como num apoteótico e carnavalesco dia das Bruxas. Ensurdecidos, íamos por entre os carros alegóricos que torciam a realidade de concreto e me faziam odiar a liberdade da infâmia. Fluíamos no coração econômico da América Latina, de trio elétrico em trio elétrico, transformando-o no visor de um rádio antigo, e no próprio rádio. Ela, ponteiro a passar as estações; depois, bailarina de caixa de música. Eu, melancolia. Com a sainha nos joelhos e o sorriso nos lábios, aqueles olhos enverdecidos me fitavam parado e aborrecido com uma Coca-cola na mão. Em meio à turbamulta, muchedumbre de grotescos gestos, sentia o peito comprimir ante à força das caixas monumentais.
Atravessamos a Paulista. Cansados sentamos. Ela brincava com uma camisinha feita bexiga (jamais confessarei quem encheu) na qual irritava esbarrar. No bolso, ingressos da Educação Sentimental do Vampiro. Dalton Trevisan para as tortuosas e perturbadoras horas futuras. Começaram a se movimentar os carros. Seguimos o alegórico-estação-de-rádio escolhido. Descemos a Consolação aos poucos. Tudo girava, contorcia, efeminava e desroupava sem sentido ao meu redor. Inferno, beirava e se atirava ao ridículo. Quieto, movendo o necessário para acompanhar minha dançarina, pensava em quanto aquele espetáculo não era gay. Procurava inutilmente na multidão o refinamento, a elegância e o estilo. Só encontrava o estereótipo, a zorra e a educação — esbarrões aos montes, nenhuma briga — festa de ogros e Feras. Minoria arrasadora, converti-me em sexo estranho, coisa grotesca, heterossexual.
Ela beijara demoradamente uma menina. Recusei veementemente o rapaz. Cumprido o papel de cordeiro sacrificial, coroar a noite com o Vampiro. Surpreendentemente, o teor da peça era ainda pior. Se algo havia de ridículo — e Trevisan, na pele de tão talentosos atores, sabia tornar ridículo o terrível —, havia ainda mais de perturbador. Dario insepulto e a vela sob a chuva fina, a menina estuprada, a puta banguela, a mulher que mata o marido violento. A voz angustiada da atora (sic) sulista. Perturbado, levei minha dançarina até em casa. Preferi esperar intermináveis horas no escuro terrífico daquela noite assustadora o ônibus no ponto vazio — estiquei o braço.