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Carta de Princípios Vegana*

Foto e ilustração (abaixo): Dimas Gomez.
por Cláudio Godoy.
O veganismo é a aplicação prática do princípio de que nenhum indivíduo senciente, ou seja, capaz de ter sensações, deve ser tratado como objeto. Todos os seres humanos têm interesse na continuidade de sua vida, na sua integridade física, na sua liberdade e em não serem tratados como recursos alheios, e é justamente por esta razão que todos são titulares de direitos básicos em igual medida, independentemente de sua capacidade cognitiva, do seu domínio da linguagem simbólica e de sua compreensão do que seja um direito. Como todos os outros animais sencientes possuem exatamente estes mesmos interesses, não existe nenhum critério moralmente relevante para não estender a eles estes mesmos direitos básicos e para continuar a tratá-los como meros recursos à nossa disposição. Em se tratando de interesses básicos, não podemos discriminar um indivíduo com base em características biológicas irrelevantes para defendermos privilégios inaceitáveis. Este tipo de discriminação é chamado de especismo, e funciona exatamente nos mesmos moldes que o sexismo e o racismo.
Como a nossa sociedade é inteiramente especista, o uso de animais não-humanos como recursos é generalizado. Existem produtos de origem animal na composição do asfalto e de pneus e praticamente todas as substâncias que utilizamos foram testadas em animais. Isso não significa que não podemos fazer nada para romper com o atual paradigma de que os outros animais estão na Terra única e exclusivamente para satisfazer aos interesses humanos. Temos o dever de no mínimo deixar de consumir qualquer produto que poderia ser produzido sem a exploração ou a matança deliberada de qualquer animal com o intuito de usá-lo como recurso, como é o caso das carnes, dos ovos, dos laticínios, do mel, da seda, dos couros, das peles e das plumas. Também não devemos patrocinar rodeios, touradas, brigas de galo, zoológicos e circos, que exploram animais. E sempre devemos preferir empresas que deixaram de testar seus produtos em animais. À medida que um número cada vez maior de pessoas adotar o veganismo, diminuirá a quantidade de restos de abatedouros disponível para se fabricar mil e uma substâncias e as empresas rapidamente encontrarão substitutos éticos para estes insumos. E aumentará a pressão para que cesse todos os tipos de experimentação animal, antiéticos pelos mesmos motivos que os testes em seres humanos sem o devido consentimento.
Do ponto de vista da nossa saúde, não é só inteiramente possível como até mesmo desejável a adoção de uma dieta que não inclua nenhum produto de origem animal em todas as fases da vida, como atesta o parecer da Associação Dietética Americana de 2003. De acordo com este parecer, todos os profissionais de saúde têm o dever de estimular e orientar aqueles que desejam adotar este tipo de alimentação e não podem mais dissuadí-los.
Além disso, a pecuária é uma das formas mais ineficientes de se produzir alimentos, além de ser responsável por um impacto ambiental devastador. De acordo com o relatório de 2006 da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) convenientemente intitulado de “A Grande Sombra da Pecuária”, a pecuária é responsável por 18% da emissão de gases estufa, maior do que a causada pelos automóveis, e um terço da terra arável do planeta é destinado à produção de alimentos para a criação de animais, que poderiam ser consumidos diretamente por um número bem maior de pessoas.
O ser humano está constantemente evoluindo em termos morais e o respeito a todos aqueles que, embora não sejam membros da nossa espécie, são igualmente capazes de sofrer e de sentir prazer e que prezam pela sua própria vida e liberdade, nada mais é do que a extensão natural de nossos horizontes morais e a aplicação na prática de princípios que já adotamos. Houve épocas no passado em que era socialmente aceitável afirmar que as mulheres existiam para servir os homens e os negros existiam para servir os brancos. No futuro, estamos otimistas de que a afirmação de que os animais não-humanos só existem para servir aos seres humanos soará igualmente ultrajante.
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Cláudio Godoy é tradutor, ativista e advogado. Vegano desde 2004, formado pela Faculdade do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo (USP). Membro fundador do GEDA (Grupo de Estudos de Direitos Animais). Faz parte do VEDDAS (Vegetarianismo Ético, Direitos Animais e Sociedade) desde 2007. Está na vanguarda do pensamento abolicionista. Atua diretamente nas reuniões mensais do GEDA e no projeto Mesa Itinerante do VEDDAS. Na área ambiental, traduziu livros como “De Estocolmo a Joanesburgo: uma retrospectiva histórica da preocupação da Santa Sé com o meio ambiente” e “Desenvolvimento Sustentável: uma introdução ao debate ecológico”. [fonte]
Alguns links de Cláudio Godoy:
- Direitos Básicos
- Princípio da igualdade de consideração de interesses e as suas implicações para o uso que os seres humanos fazem dos outros animais
- Lista de palestrantes do ENDA 2008 - Encontro Nacional de Direitos Animais
- Tradução do texto Perguntas Mais Frequentes de Gary Francione
- Relatório GEDA - Reunião 5, sobre a igualdade de consideração
- Polêmicas filosóficas no Stoa 1
- Polêmicas filosóficas no Stoa 2
- Polêmicas filosóficas no Stoa 3
- Perfil no blogger.
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*N. do Blogueiro: esta carta foi inicialmente escrita a meu pedido para o projeto Seja Vegano, que atualmente mofa em penumbras sepulcrais. Então republico aqui para aproveitar melhor um texto tão querido do meu igualmente querido amigo Cláudio Godoy, membro do GEDA e do VEDDAS.