Dimas Gomez’s

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Meu quarto Ou O sono, o amor, a vida.

Angels Dream In Whispers 8

Angels Dream In Whispers 8 de Akif [Hakan] CELEBI

 

Meu Quarto Ou O sono, o amor, a vida.

Por Dimas Gomez.

Por muito tempo dormi sonhos profundos e reais.
E no brotamento aquático veio o Pesadelo:
–o sono não se controla–
O leão pulou sobre mim e…
(O coração se acostumou a calar escondido numa gaveta qualquer.)
… acordei.

Sonado inesperto trôpego,
Fechei as venezianas –ou deixei fechadas,
retranquei a porta, que agora eu tinha –ou redeixei trancada.

Percebi o amor crescendo em folha;
(o coração desaprendeu o alfabeto)
e a luxúria que já estava lá –sempre há hEras sempre.

Tento arrumar o quarto:
a cama, as mesas, os papéis, os planos –é impossível deixar como está.

Mas a bagunça vem de dentro –onde porei o Caos?
a veneziana continua fechada
e já está mesmo na hora de almoçar.

— Amanhã.

Por Dimas Gomez em 9 de setembro de 2008 às 13h47

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Soco no Espelho

Por Dimas Gomez.

Ela veio tremendo. A mão cortada de sangue, de caco de vidro, de espelho, de lâmpada. A dor era de sangue escorrendo, latejando, fraquejando as pernas bambeantes de choro dolorido. Ela não queria ligar pro hospital. Não era louca. Não era. Era tristeza, era raiva, era decepção. Era traição encardida de escarlate. Mas o espelho é que sofreu, a lâmpada que no susto estourou, como se fosse o copo de cristal de um grito surdo, que a luz preenchia. E o copo de luz apagou, e ela veio tremendo. Tremendo de susto do sangue despejado, despejante, dorente.

Ela entristeceu o corredor, a sala, com sangue no carpete de madeira tão querido e cuidado. E veio. E o ódio e a humilhação vieram juntos. O vinho veio também, já bebido e embebido, vermelho e lancinante, na garrafa agora também derramada, porque tropeçar no mogno da mesa de tampo de vidro era até redenção. Mas a redenção não veio. Tampo trincado, garrafa rolada, vinho vertendo pela boca. Bocarra. Assim esculpida a cena triste, ela sentou no sofá e desistiu de usar a mão-mais-forte pra melindrar toda aquela raiva. Numa nova tentativa de carinho ofertado, desistiu da destruição na carícia de pegar o telefone. A mão fraca, fracamente, discou.

Por Dimas Gomez em 7 de julho de 2008 às 10h59

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COMIA LÂMPADAS

 

Por Dimas Gomez.

Uma menina de linhas densas no rosto, de coração bom e de alegria simples. Um rosto redondo de lua, uns traços orientais. Abraçados, nos encostávamos. Tomava-a, ora pelas costas, toda tocando levemente, ora pelo lado, nos apoiando. Suprimia qualquer desejo. Um toque sensual nada obsceno. Do gosto do corpo amigo, sem malícia. Amigos de rara amizade. Viajávamos num ônibus para algum lugar ao norte do Estado. Goiás, talvez. Nos conhecemos naquela parada.

Entramos numa lojinha de conveniência. Em perfeita harmonia, escolhemos algumas guloseimas. Não me lembro bem, mas pagamos, ou paguei, em perfeito acordo de notas e moedas. Compramos também algumas lâmpadas: podia faltar luz na pousada.

Sentamos juntos, para o meio do ônibus. Algum tempo da partida, ela transbordava sexo. Levantou a saia curta. As coxas clarinhas, a púbis delicada. Meteu a mão, mexia e tocava. Era público! Decidi arranjar o banheiro do ônibus. Concordou transdoidepassivamente. Arranjei briga com o povo do fundão: Um cara tomara a minha vez na merda. Ralhei com outro. Você é folgado, hein cara? Não! Você é que é folgado, meu! Você se acha, hein? Não me achava: tinha certeza. E enfiei esta: todos têm direito de ser filho da puta. Sou filho da puta, e daí? Você por acaso não é? Sou mesmo. Disse mesmo. E tá: o bolo-fofo calou a boca. De volta ao meio do veículo, mal conseguindo, encontrei o lugar vazio. Fui até a frente. O motorista lambia aqueles seios gelatinosos e dirigia.

Saturnina e furiosamente arranquei-a da cabine. Sentei-a. Você gosta mais de mim do que eu mesma. Puxei o saco de comidas. Encarcerada entre a janela e meu aborrecimento, tentava escapar por ela, embora sem ao menos abrir. Ficou quieta e voou. Peguei uma lâmpada. Primeiro, quebrei a abóboda com os dentes. Saía o argônio rarefeito e entrava o oxigênio maléfico. Evitando o filamento, fui quebrando os pedaços de vidro finíssimo e frio, um sorvete de rara espécie, para não cortar a boca. Sem erro no procedimento, utilizava as partes duras da boca contra as pontas, e as curvas contra os arcos dos pedaços. Mastiguei bem. Cuidava pra não machucar o céu, e descuidava pra que machucasse a língua. Suavemente, engoli e ruidosamente me entretive, provando a bile entre uma lâmpada e outra que o gosto do vidro provocava na faringe, totalmente moído. Como restos das guloseimas, sobravam bases metálicas e filamentos.

 

Por Dimas Gomez em 17 de agosto de 2007 às 18h47

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