Archive for the ‘Poemas’ Category
Seus Olhos
Se Capitu existiu, eu não sei.
Sei que existem uns olhos que mudam de cor,
uns olhos certos que não gostam muito de sol não,
que vivem um dia a dia de luz, intenso,
de um seco sertão que não é tão seco assim não.
Ainda mais porque o beijo molhado refresca, reaviva,
a pedra, pedra de rio, pedra de rim, a pedrada do seco sertão não dói em mim.
Loura pele dourada, porque a água dos teus olhos rega minh’alma, me cresce em verso, me salta em alegria e um desejo de paz… de rede, de varanda, de al-ta-ne-ri-a…
Simples, de campo, caerianamente,
sem soberba, sem dor, sem tristeza,
sem nada além de Ci.
Esse coração paulistano verga
frente o pendor de
ser tão sertanejo de amor,
do alto, altivo e altaneiro vigésimo quarto andar,
no úmido frio da Ipiranga co’a São João,
na Bela Vista do Bom Retiro:
Sedento da tua beleza de flor dourada
de ninfa sapeca, moleca danada,
gata arisca, gata brava,
eu bebo nos teus olhos e me aprumo,
eu-cinza, eu-negro, eu-pó, eu-fumo.
Gatinha Arisca
Você chegou arranhada
gata arisca
gata brava
novinha demais pra tanta dor.
Linda,
me deu a mão
cedeu a cabeça
confiou o corpo no meu abraço
deitou a alma na minha.
De pelagem nova,
os bigodes saindo,
quero te ver toda brincalhona de novo
Mais forte, mais ágil,
Mais minha.
Reflexões sobre o fazer-nada
1.
Todos me dizem para falar menos e fazer mais, mas quem fala geralmente não faz. E ajudaria mais se não falasse nada.
2.
O que impede a ação, não sei se é medo, apatia, ou falta de fé.
3.
Numa mobilização, é fácil convencer os ingênuos e os crentes - que não são necessariamente os mesmos, mesmo que o crente frequentemente seja ingênuo e o ingênuo seja crente; o que acontece é que os demais não acreditam nos outros, ou não têm fé em si mesmos.
4.
O próprio reconhecimento
do próprio egoísmo
é forte indício
para não se acreditar em mais ninguém.
Pequeno Príncipe e o Elefante Fabricado

Fonte da Imagem: Facebook de Gilberto da Silva Francisco
A vida muda toda vez
que algo me acorda
que eu me recordo
que o elefante, mesmo que fabricado,
sempre cabe numa jibóia.
–
Copyleft: “Leva embora”
, como diz o @samadeu
Obra Prima ou Tristeza da Saudade
O tempo passou,
A estrada árdua que eu escolhi ficou vazia.
Alguns amigos ainda me visitam,
céleres pelas vielas fáceis e estradas corredias.
Foi burrice?
Talvez, porque de nada vale uma estrada azeda e fria,
ou quente ausente;
dá na mesma.
Talvez todos os meus amigos e inimigos estejam
tão sozinhos quanto eu.
Pelo menos se enganam,
ou engano meu?
De fato, o fogo fátuo das filosofias
no meu peito se perdeu:
Não tem mais chama!
A baboseira toda enferrujou o altar de ferro
e a lama, cobriu a jade, o rubi e a esmeralda,
e o peregrino se fodeu.
Sobrou lá umas idéias, outras, diferentes.
De como ser diferente, deveras, entre os iguais,
de qualquer tipo, raça, idéia, quais,
não vale a pena dizer que de tudo o que se tira,
ficou a dor do século das luzes ser nos umbrais.
E da certeza de que se vida é duração
- uma vela acesa -;
é no calor da queima,
prolongada e segura,
que fica o trabalho, que faz da vida,
- o tempo não pára,
não retrocede,
A memória é certa, como a morte -
que faz da vida,
uma obra prima.
Ao Felipe Carvalho
Forjado nos frios siberianos.
Hecho de hielo. Ojos de hierro.
Forte.
Ora vigoroso e estúpido
à semelhança de um cavalo,
ora sensato e saco-de-batata…
ruffles.
Um bom mujique cearense,
nunca pegar numa enxada.
Bar próprio?
Bêbedo, um palhaço sensível.
Duro, todavia líquido.
Mistério insondável.
Gitano de alma,
meu irmão.
Meu quarto Ou O sono, o amor, a vida.
Angels Dream In Whispers 8 de Akif [Hakan] CELEBI
Meu Quarto Ou O sono, o amor, a vida.
Por Dimas Gomez.
Por muito tempo dormi sonhos profundos e reais.
E no brotamento aquático veio o Pesadelo:
–o sono não se controla–
O leão pulou sobre mim e…
(O coração se acostumou a calar escondido numa gaveta qualquer.)
… acordei.
Sonado inesperto trôpego,
Fechei as venezianas –ou deixei fechadas,
retranquei a porta, que agora eu tinha –ou redeixei trancada.
Percebi o amor crescendo em folha;
(o coração desaprendeu o alfabeto)
e a luxúria que já estava lá –sempre há hEras sempre.
Tento arrumar o quarto:
a cama, as mesas, os papéis, os planos –é impossível deixar como está.
Mas a bagunça vem de dentro –onde porei o Caos?
a veneziana continua fechada
e já está mesmo na hora de almoçar.
— Amanhã.
Canta, amigo, canta!
Por Dimas Gomez.
Como anda o teu canto, amigo?
Como anda tua voz velada,
sempre calada,
de contralto, soprano,
animal não-humano.
Chega de silêncio, amigo,
garganta rouca, amígdala inflamada,
testada para narcóticos anônimos
assassinos mercadológicos,
farmacológicos atômicos,
um lanche nu; carne preta
de drogas necessárias.
Como anda o teu canto, meu amigo?
Sem noite, sem pele, sem leite, só.
Como anda a tua alma, meu irmão?
Que ninguém reconhece,
(a ninguém enternece)
Julgam-te máquina de secreções.
Pele, carne, osso e mel.
À tua cria, nenhuma clemência.
Entrevada, baby beefs,
Pérfidos acepipes;
Cleros papais hipócritas saboreiam foie gras.
Canta, amigo, canta!
Desrouca a garganta,
Ruidoso, chiado, uivo raivoso,
Que é dado o tempo,
Da tua voz ecoar.
A verdade vêm à tona,
E não haverá lona,
Pra encobrir teu cantar.
Segredo.
Por Dimas Gomez.
Curte esse segredo.
No teu silêncio.
Não faz barulho, burburinho, olhar-gesto: descomunica-te.
Cala-te verdadeiramente.
Porque só assim você é capaz de saborear uma coisa só tua.
– Amo-te: É lindo o sotaque lusitano…
Apaga, esconde: fecha o caderno.
Não conta a ninguém.
Porque quem conta é você. Nada mais.
25.11.2006
Subi no ônibus
Por Dimas Gomez.
