Dimas Gomez’s

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Archive for the ‘Ensaios’ Category

O caximbo, o pedregulho e a flecha

(um excerto cru de coisa nenhuma)

 

A flecha atravessou o peito do que vinha ver o que era. O baque surdo do corpo ou o zunido da seta ou o gemido do morto trouxe outro à porta, que se saiu mais cauteloso (bêbado ou sonolento), tombou com o mesmo estrépito. Cinco homens morreram de maneira semelhante, igualmente rápida e sem reação. Sem um único disparo.

Nada incomodou a lua cheia, o burburinho sonolento do rio largo no fundo do vale, nem a mata circundante. A modesta cabana no meio da encosta servia de abrigo aos viajantes que seguiam o curso do rio. Naquela noite fresca e amena, um rapazote vigiava, com seu cigarro, nos fundos, indiferente à vista da varanda, fumando sem muito interesse.

Um vulto opaco parecia se mover pelas folhagens, um ponto de fogo aparecia vez-em-quando, como um vaga-lume. Esse estranhamento se aproximou.

— Velho, você veio!

— Venha comigo, se quiser viver.

— Por quê?

— Saber ou viver?

Ele seguiu o velho. Escondidos atiraram pedregulhos. Indígenas a postos. Rapidamente tudo estava terminado.

— O que foi isso? O que foi que eles fizeram? Por que me salvou?

— Saber ou viver?

Por Dimas Gomez em 25 de setembro de 2008 às 01h02

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O gato que gostava de azeitonas

Por Dimas Gomez.

Mel fugiu da câmera.

Doc Comparato sugere exercitar a criatividade escrevendo story lines do nada. Com o teclado nos dedos, lembrei de uma vez em que derramei conserva de azeitona no chão, e não pude evitar umas boas lambidas do bichano residente. Azeitonas! Tracei então algumas linhas: um gato que assaltava uma azeitona do pote de conservas, na geladeira, todas as noites. Até que um dia a dona da casa desse o flagra ou pelo pote vazio. Você provavelmente imaginou a cena sem dificuldade, mas gravar é que são elas. Além disso, não come propriamente a azeitona. Gosta é de lamber:

Um gato que gosta de azeitonas, na sua desesperada todavia cautelosa e furtiva tentativa de pescar uma azeitona no pote, o derruba no chão. Delicadamente desce da mesa e lambe o caldo derramado. Morde uma azeitona e vai saindo. Chega o menino e vê perplexo que a sujeira está feita: Seu gato idiota! A mãe entra, se vira e faz aquela cara. Coloca a mão na cintura e diz: Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc…

Mas recebi duras críticas. Ninguém disse o quanto era clichê, ou brega, ou “comercial de margarina”. Apenas que era politicamente incorreto chamar o gato de idiota. Expliquei que é coisa do menino, que é o meu inconsciente, que é instintivo, etc, etc, etc. Em vão. Estou subliminarmente induzindo a opinião alheia a pensar que gatos são idiotas…

De qualquer modo, a cena, como é de se esperar, só ganhou com a discussão:

Um gato que gosta de azeitonas, na sua desesperada todavia cautelosa e furtiva tentativa de pescar uma azeitona no pote, o derruba no chão. Delicadamente desce da mesa e lambe o caldo derramado, morde uma azeitona e vai saindo. Chega o menino, vê perplexo que a sujeira está feita e diz: veja bem, eu sou vegano, não sou especista, então, e por isso mesmo, reclamo da sua conduta inadequada. Afinal, minha mãe vai logo mais reprovar a sujeira pensando que fui eu o culpado. Vou fazer cara de santo, mas ela não vai me dar o menor crédito. Então agradeceria imensamente se você pudesse esperar neste recinto até que a minha mamã peixetariana descubra o estrago e lhe dê vassouradas. Só me perdoe se eu não puder evitar a violência, porque aqui em casa quem manda são os onívoros. Me desculpe.

Mas o gato já estava longe quando o menino terminou. A peixetariana ralhou com o filho, inclusive agora por falar sozinho. Mas, felizmente, dessa maneira, safei-me juntamente com o gatuno – o esperto aqui – porque ninguém vai poder ralhar comigo (eu acho).

Por Dimas Gomez em 21 de setembro de 2008 às 19h50

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Meu quarto Ou O sono, o amor, a vida.

Angels Dream In Whispers 8

Angels Dream In Whispers 8 de Akif [Hakan] CELEBI

 

Meu Quarto Ou O sono, o amor, a vida.

Por Dimas Gomez.

Por muito tempo dormi sonhos profundos e reais.
E no brotamento aquático veio o Pesadelo:
–o sono não se controla–
O leão pulou sobre mim e…
(O coração se acostumou a calar escondido numa gaveta qualquer.)
… acordei.

Sonado inesperto trôpego,
Fechei as venezianas –ou deixei fechadas,
retranquei a porta, que agora eu tinha –ou redeixei trancada.

Percebi o amor crescendo em folha;
(o coração desaprendeu o alfabeto)
e a luxúria que já estava lá –sempre há hEras sempre.

Tento arrumar o quarto:
a cama, as mesas, os papéis, os planos –é impossível deixar como está.

Mas a bagunça vem de dentro –onde porei o Caos?
a veneziana continua fechada
e já está mesmo na hora de almoçar.

— Amanhã.

Por Dimas Gomez em 9 de setembro de 2008 às 13h47

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Viagem Animal

Por Dimas Gomez.

Transporte tranqüilo e sossegado. Você só será transportado se estiver em perfeitas condições. Não se preocupe, você receberá todo o carinho. Nós garantimos a presença de especialistas em cada estágio do seu transporte. As instalações da sua próxima acomodação serão perfeitas. A vista, a ventilação, a proteção contra os danosos raios solares… Água? Não faltará. Você se distrairá, não terá com o que se preocupar e no fim da estada…

No fim da estada nós o mataremos com o máximo humanitarismo, enquanto você dorme anestesiado.

[Sobre a matéria Entenda o abate humanitário, discutida no GEDA-SP – Grupo de Estudos de Direitos Animais de São Paulo.]

[quem tiver uma fonte melhor, é favor comentar]

Por Dimas Gomez em 1 de setembro de 2008 às 23h02

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Canta, amigo, canta!

Por Dimas Gomez.

Como anda o teu canto, amigo?
Como anda tua voz velada,
sempre calada,
de contralto, soprano,
animal não-humano.

Chega de silêncio, amigo,
garganta rouca, amígdala inflamada,
testada para narcóticos anônimos
assassinos mercadológicos,
farmacológicos atômicos,
um lanche nu; carne preta
de drogas necessárias.

Como anda o teu canto, meu amigo?
Sem noite, sem pele, sem leite, só.
Como anda a tua alma, meu irmão?
Que ninguém reconhece,
(a ninguém enternece)
Julgam-te máquina de secreções.
Pele, carne, osso e mel.
À tua cria, nenhuma clemência.
Entrevada, baby beefs,
Pérfidos acepipes;
Cleros papais hipócritas saboreiam foie gras.

Canta, amigo, canta!
Desrouca a garganta,
Ruidoso, chiado, uivo raivoso,
Que é dado o tempo,
Da tua voz ecoar.
A verdade vêm à tona,
E não haverá lona,
Pra encobrir teu cantar.

Por Dimas Gomez em 27 de agosto de 2008 às 13h48

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Soco no Espelho

Por Dimas Gomez.

Ela veio tremendo. A mão cortada de sangue, de caco de vidro, de espelho, de lâmpada. A dor era de sangue escorrendo, latejando, fraquejando as pernas bambeantes de choro dolorido. Ela não queria ligar pro hospital. Não era louca. Não era. Era tristeza, era raiva, era decepção. Era traição encardida de escarlate. Mas o espelho é que sofreu, a lâmpada que no susto estourou, como se fosse o copo de cristal de um grito surdo, que a luz preenchia. E o copo de luz apagou, e ela veio tremendo. Tremendo de susto do sangue despejado, despejante, dorente.

Ela entristeceu o corredor, a sala, com sangue no carpete de madeira tão querido e cuidado. E veio. E o ódio e a humilhação vieram juntos. O vinho veio também, já bebido e embebido, vermelho e lancinante, na garrafa agora também derramada, porque tropeçar no mogno da mesa de tampo de vidro era até redenção. Mas a redenção não veio. Tampo trincado, garrafa rolada, vinho vertendo pela boca. Bocarra. Assim esculpida a cena triste, ela sentou no sofá e desistiu de usar a mão-mais-forte pra melindrar toda aquela raiva. Numa nova tentativa de carinho ofertado, desistiu da destruição na carícia de pegar o telefone. A mão fraca, fracamente, discou.

Por Dimas Gomez em 7 de julho de 2008 às 10h59

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Havia uma porta.

Por Dimas Gomez.

Havia uma porta. Sempre há uma porta. Havia rabiscado uma porção de vezes, naquele corredor solitário, fechado e acústico, branco e sombrio, de soalho de lajota. Ficava perto da do elevador, de madeira, e das escadarias, de metal, todas do mesmo tom marrom escuro. Era grossa. Entrava direto na cozinha. Por dentro, era pintada de branco, cor dos azulejos e do teto da minúscula. O visitante dava de cara com a pia e um pequeno lixo sobre. Com geladeira e fogão, acabava em três passadas.

A sala. A porta dela sempre aberta. Havia três colchões por trás dela. Era maior. Não muito grande, de todo modo. Logo se via que a casa acabava ali, mais o banheiro, que era do tamanho da cozinha. Havia uma mesa de rodinhas no início da sala. Pequena. Um sofá enorme e branco de frente, guarda-roupas para todos os lados. Um espelho de corpo inteiro encarava os visitantes. Uma grande janela de abrir pra cima dava para a avenida Nove de Julho, completamente entulhada de plantas, apesar da proibição do condomínio. Era até fácil dizer qual era a minha janela. Bastava apontar o ponto verde. Rodeando a sala, por cima das portas, uma gigantesca estante tapada de papéis brancos, mal alinhados, cheia de grandes caixas, que por sua vez continham coisas e mais coisas, de maneira que mamãe nunca sabia onde havia deixado o que procurava. Mas nunca jogava nada fora. Não que guardasse lixo. Apenas impedia que virasse. Garrafas, as que podia, copos, não importando se de plástico ou não. Até as colherinhas de café dos restaurantes não escapavam se fossem descartáveis. Tornavam-se potencialmente úteis. Ainda no alto, as samambaias.

Nenhum senso estético. A casa inteira era pintada de branco. Três cômodos pintados no extremo da economia. Uma cor só. Os azulejos do banheiro eram de outro tom, azul-banheiro, porque não tinham sido retirados na restauração daquele “kitnet”, comprado por R$ 7.000,00 todo destruído, e restaurado, a partir dos encanamentos e eletricidade até a pintura. Mais economia. Nele, a máquina de lavar, um box malfeito e aestético, de barras de alumínio suportando placas de acrílico manchado, funcional, e um vaso sanitário cor de tijolo. O vitrô do banheiro era minúsculo e quebrado. Ferros podres. Em dez anos, mais. Os vidros translúcidos foram trocados. Havia ainda um vitrô bem alto, entre o banheiro e a cozinha, do qual era possível gritar qualquer coisa e estabelecer uma conversa quase normal entre alguém que preparava a comida e outro que tomava banho.

O computador, os livros, o armário ficavam num canto. Tudo muito junto, muito territorializado. Em 1 metro quadrado, era possível, mas não simultaneamente, abrir a estante de livros, usar o computador, com o teclado no colo, ou abrir o armário. Mas como apenas para dormir os três se juntavam, estendiam os colchões no chão e transformavam a sala em quarto, era até que fácil, com alguma imaginação e sem nenhuma televisão – depois de quebrada, virara objeto proibido pela generalíssima mamã – viver naquele cubículo.

Por Dimas Gomez em 11 de maio de 2008 às 22h11

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Viagem

Por Dimas Gomez.

Nosso carro. Casados. Um grande, alto, espaçoso e prateado. Paramos num cantinho duma rua na praça. Cidadezinha mineira de interior. Cheia de autos estacionados mais pra lá. Coisa esquisita. Saí. Chegou uma senhora já pedindo licença pra entrar no carro. Surpreendentemente, minha ruivinha simplesmente abriu a porta e sailevantou levantossaiu. Deixou que a mulher manejasse o carro, desse uma volta em si, e estacionasse ao contrário. Gostou do carro. Perguntou quanto queríamos. Mas não está à venda! Como não? Aqui é a feira nacional de Não-sei-quê da Cidadezinha-de-nada! Mas que feira, que nada! O que vocês estão fazendo aqui, então? Ora, a rua é pública, minha senhora! A senhora, qual é mesmo seu nome? Raquel? Bem, Raquel, a senhora vai ter que me pagar o prejuízo! Quinze reais! Minha mulher já foi sacando a carteira. Peraí, madame! Quem vai ter que pagar é a senhora! Vem me incomodar e à minha mulher, que tá grávida assim do nada! Faz ela sair do carro, estamos de viagem, e ainda se acha no direito? Faça o favor de pagar a senhora! Eu quero uma polícia. A senhora vai pagar. Polícia! Não tem uma polícia que seja nesse fim de mundo? A mulher foi saindo de fininho, mas prometendo rebote. Demos um jeito de arrancar de lá. Que cidade de doidos!

Por Dimas Gomez em 11 de maio de 2008 às 22h09

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Felixembriagante*

Por Dimas Gomez.

Meu perfume favorito é doce. Aparece nas situações mais inusitadas. Geralmente, descubro caminhando pelas ruas de manhãzinha ou ao anoitecer. Cheiro dum verdezinho suave e fugaz. Não conseguem prendê-lo em frascos. Mas pode-se cultivar o arbusto, arvorezinha de sombra boa, cuja flor, como o perfume, são pinceladas esbranquiçadas, numa bruma verde, formada de folhas na flor e de orvalho fresco no cheiro. Do mesmo modo, as flores minúsculas exalam um cheiro pequenino, miúdo, porém intenso. Felixembriagante.

Leve, como o sorriso que provoca. Calmo, porém ansioso, como o amor. Aparece à noite, pelas ruas, porque é luar pelas narinas, naquela luminosidade de sonho. Sua arvorezinha está naqueles lugares que guardam o carinho e que encontramos dobrando uma esquina. Suspiros do amor intransitivo. Como o nome sugere, é um perfume de mulher-mistério, da mulher mesma. Perfume da própria noite, que é mulher, e vaga frescamente por entre as brancas neblinas, Dama-da-Noite.

 

* felix: do latim, feliz, contente, satisfeito.

Por Dimas Gomez em 11 de maio de 2008 às 22h05

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Interrogações

Por Dimas Gomez.

Por Dimas Gomez em 17 de julho de 2007 às 02h41

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