Archive for the ‘Contos’ Category
Parafraseando Chateaubriand
Conta-se que certa vez Chateaubriand mandou um jornalista seu cobrir a guerra:
– Vai lá e traz a reportagem, mas ó… não vire notícia!
Actual Li Nothinn, o letrado
O Sr. Actual Li Nothinn entendera cedo uma parte fundamental de sua psique: gostava de ler e acompanhar os eventos. Portanto, que o jornal seria extremamente proveitoso e útil. Conseguiu durante anos praticar a arte, que aquecia os neurônios redacionais - ele gostava de escrever - e que o mantinha informado sobre o que… havia acontecido. Sobretudo de domingo, quando relia tudo o que ocorrera na semana, o que equivalia também a reler os fólios dela. Sobre sábado, só saberia na segunda-feira.
Certa feita, não suportando mais perder a chance de testemunhar os eventos, o que era extremamente irritante especialmente para ele, iniciou uma investigação particular. Era um homem diferente nosso amigo. Gostava de palestras, eventos e seminários. Conhecer gente importante de perto quando realmente admirava tais pessoas. Daí, gradualmente observou e compôs o estudo que intitulou A Economia das Letras.
A primeira observação interessante, que deu origem a toda a investigação - noto que para dar verossimilhança à história, devo acrescentar não apenas uma irritação, mas algum fato mais água-na-bunda -, foi quando procurou aproveitar o prazer de ler para ganhar algum dinheiro. Perder os eventos era irritante, mas além disso era incapaz de ler tanto quanto gostaria, pois tinha que também ganhar o pão. Percebeu, infelizmente, que quanto mais lia, mais queriam cobrar dele. Ninguém se dispôs a pagar por caracteres. (Recentemente, entretanto, tive notícia de que em 2046 o protagonista recebe por caracteres (escritos); quem sabe se nosso amigo apenas precisava de um pouco mais de sorte?)
Adivinhou que a leitura era consumo, não produção. Estendeu o conceito e obteve êxito. As professorinhas de ensino fundamental formavam a base da cadeia produtiva. Ensinavam o alfabeto e como fundir palavras. Em seguida, às crianças, como repetir o processo individualmente com outros materiais já manufaturados. A Reciclagem. Tratava-se, claramente, de um sistema de grande retornabilidade. Um sistema de recursos absolutamente renováveis que não exigia sequer a destruição da matéria-prima original. Exigia, entretanto, de modo inexplicável, a destruição de massa cinzenta, concluiu (ou convencionou preguiçosamente) o nosso Actual.
A brilhante conclusão veio quando notou que a matéria da qual era feito o conhecimento que forneciam as professorinhas era geralmente o produto da educação dos Mestres da Academia de Ensino Superior. Um sistema completo, fechado, cíclico. Geralmente, é claro, de professorinhas pobres que não podiam cultivar formas mais caras de conhecimento, e acabavam com o b-a-bá, matéria rústica da qual se podia extrair todo o resto. Sem falar da posição social degradante de ser mulher, pobre e pra completar, professora. Uma vergonha.
Portanto, o manuseio do convencionado Baba (o nosso Li Nothinn não viu utilidade em hífens, acentos ou tremas, um vanguardista na uniformização das ortografias) era perigoso, destrutivo - deletério em suma. Todo escritor sofria parcialmente com isso, mas quem manuseava o Baba (gradualmente todas as formas de escrita primitiva) era objeto de maior agravo. Eu, inclusive. Apenas os manuseadores de idéias, portanto, que não escreviam coisa nenhuma, que não diziam coisa-com-coisa, apenas coisa-sem-coisa - isto é, sem a terrível matéria deletéria, a “coisa” - ficavam livres desses vapores deformantes.
Concluiu então que ler jornais não era saudável - do mesmo modo que escrever, mas paciência -, nem útil e resolveu mudar de profissão. De leitor profissional passou a jornalista. Assim, saberia de tudo antecipadamente, sem precisar ler “coisa” nenhuma.
O gato que gostava de azeitonas
Por Dimas Gomez.

Doc Comparato sugere exercitar a criatividade escrevendo story lines do nada. Com o teclado nos dedos, lembrei de uma vez em que derramei conserva de azeitona no chão, e não pude evitar umas boas lambidas do bichano residente. Azeitonas! Tracei então algumas linhas: um gato que assaltava uma azeitona do pote de conservas, na geladeira, todas as noites. Até que um dia a dona da casa desse o flagra ou pelo pote vazio. Você provavelmente imaginou a cena sem dificuldade, mas gravar é que são elas. Além disso, não come propriamente a azeitona. Gosta é de lamber:
Um gato que gosta de azeitonas, na sua desesperada todavia cautelosa e furtiva tentativa de pescar uma azeitona no pote, o derruba no chão. Delicadamente desce da mesa e lambe o caldo derramado. Morde uma azeitona e vai saindo. Chega o menino e vê perplexo que a sujeira está feita: Seu gato idiota! A mãe entra, se vira e faz aquela cara. Coloca a mão na cintura e diz: Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc…
Mas recebi duras críticas. Ninguém disse o quanto era clichê, ou brega, ou “comercial de margarina”. Apenas que era politicamente incorreto chamar o gato de idiota. Expliquei que é coisa do menino, que é o meu inconsciente, que é instintivo, etc, etc, etc. Em vão. Estou subliminarmente induzindo a opinião alheia a pensar que gatos são idiotas…
De qualquer modo, a cena, como é de se esperar, só ganhou com a discussão:
Um gato que gosta de azeitonas, na sua desesperada todavia cautelosa e furtiva tentativa de pescar uma azeitona no pote, o derruba no chão. Delicadamente desce da mesa e lambe o caldo derramado, morde uma azeitona e vai saindo. Chega o menino, vê perplexo que a sujeira está feita e diz: veja bem, eu sou vegano, não sou especista, então, e por isso mesmo, reclamo da sua conduta inadequada. Afinal, minha mãe vai logo mais reprovar a sujeira pensando que fui eu o culpado. Vou fazer cara de santo, mas ela não vai me dar o menor crédito. Então agradeceria imensamente se você pudesse esperar neste recinto até que a minha mamã peixetariana descubra o estrago e lhe dê vassouradas. Só me perdoe se eu não puder evitar a violência, porque aqui em casa quem manda são os onívoros. Me desculpe.
Mas o gato já estava longe quando o menino terminou. A peixetariana ralhou com o filho, inclusive agora por falar sozinho. Mas, felizmente, dessa maneira, safei-me juntamente com o gatuno – o esperto aqui – porque ninguém vai poder ralhar comigo (eu acho).
Soco no Espelho
Por Dimas Gomez.
Ela veio tremendo. A mão cortada de sangue, de caco de vidro, de espelho, de lâmpada. A dor era de sangue escorrendo, latejando, fraquejando as pernas bambeantes de choro dolorido. Ela não queria ligar pro hospital. Não era louca. Não era. Era tristeza, era raiva, era decepção. Era traição encardida de escarlate. Mas o espelho é que sofreu, a lâmpada que no susto estourou, como se fosse o copo de cristal de um grito surdo, que a luz preenchia. E o copo de luz apagou, e ela veio tremendo. Tremendo de susto do sangue despejado, despejante, dorente.
Ela entristeceu o corredor, a sala, com sangue no carpete de madeira tão querido e cuidado. E veio. E o ódio e a humilhação vieram juntos. O vinho veio também, já bebido e embebido, vermelho e lancinante, na garrafa agora também derramada, porque tropeçar no mogno da mesa de tampo de vidro era até redenção. Mas a redenção não veio. Tampo trincado, garrafa rolada, vinho vertendo pela boca. Bocarra. Assim esculpida a cena triste, ela sentou no sofá e desistiu de usar a mão-mais-forte pra melindrar toda aquela raiva. Numa nova tentativa de carinho ofertado, desistiu da destruição na carícia de pegar o telefone. A mão fraca, fracamente, discou.
CASA DA INFÂNCIA
Por Dimas Gomez.
Numa rua minúscula e quieta e curva e côncava, de asfalto cinza, rua Professora Bem-vinda Aparecida de Abreu Leme, minha casa. Do lado esquerdo do prédio branco e baixo de quatro andares, um estacionamento. Do lado direito, um gramadinho atrás das grades de uma construção silenciosa. No outro lado da rua, a casa do Luís. E outras coisas sem importância. Um estacionamentozinho para poucos carros se adiantava ao meu prédio branco e baixo, quase sempre quase vazio.
A porta do prédio foi à chave, antes de ser automática. A porta do prédio tinha um recuo, abrigo da chuva, lugar de criança sentar e dar o primeiro beijo. Logo ali ao lado, direito, a janela gradeada, ampla e cortinada de Luciana, loirinha eu-dela, geniosa, bem no térreo. Éramos namorados. Só a empregada dela sabia. Com certeza, só a empregada. Dançava pra mim ao som da Xuxa no rádio-gravador preto, de baiano da minha mãe. O mesmo gravador que serviu de sonoplastia à peça que Natália, Nara e eu apresentamos ao prédio, num cenário horripilante duma casa de cortinas. Reproduzia a porta rangendo daquele armário branco, que por si só já era assustador, na fita cassete que o Luís tão gentilmente cedeu. Apaixonado desejo precoce de mergulhar no oculto.
E por falar nisso, do outro lado da entrada, uma portinhola, uma escada para baixo e a casa da bruxa. Havia morrido, mas deixara um feitiço que a amarrara ao mundo dos vivos. Deixara um grande osso seu sob o tanque de lavar roupas, que ficava no quintal. Não avancei mais. Nem ninguém. Não me acreditaram. A casa, como sempre, continua vazia; o osso, insepulto. No extremo canto esquerdo, ladeando o quintal dela, um corredorzinho que podia passar um homem, dava acesso ao pátio interior. Dele, entrevia-se a cozinha, através do vitrô maltratado pelo tempo.
Eu morava no fim do pátio, na última janela do último andar, no extremo oposto da casa de Luciana. A minha janela era branca, de levantar, madeira grossa, composta por dezesseis retângulos de vidro, quatro a quatro. O quarto era quadrado, com uma cama grande, onde dormíamos eu e meu pai. Mamãe na sala. Certa noite tempestatesca, pela intuição sempre pronta, da queda do teto de um bloco de gesso escapara papai. Machucara um pouco a perna, a mesma que jogava futebol comigo, provavelmente frustrado ao perceber que o filho não nascera pra’quilo. A mesma perna do acidente que lhe daria um pino de platina num tombo absurdo provocado por uma ridícula poça de óleo de um posto de gasolina.
Seu filho, fraco e falante. Ele, na juventude, hombre fuerte y valiente. Brigão de sangue quente. Minha mãe fez dele cordeirinho. Certa vez, quando me disse que devíamos ir embora, culpando um cachorro, eu disse que chamasse a mamãe: – Ela não tem medo. Que nem tia Ana, um muque de derrubar boi brabo. Que nem meu vô. Mas pra fazer justiça, foi meu pai quem livrou tia Ana dum tipo que não queria deixar ela ir. Bateu na porta e de um soco deixou o canalha inconsciente todo o tempo de recolher as malas e sair porta afora. Ela morou em casa. Meio castelhano, cresci há quatro quadras do metrô.
E quatro anos é a idade da garupa na moto, indo pra creche. Tinha um capacete verde, de viseira de garrafa de guaraná. Sob um noite de chuva, há um quadra de casa, na rua de paralelepípedos, encurralados os três por uma kombi, tombamos. Queda. O capacete partiu. A casa ao lado me deu um copo de água com açúcar. Eu chorava. Voltamos. A cama do quarto. Café-com-leite, como sempre e sempre, ao acordar. O corredor (adoro corredores). O banheiro onde fazia meus mergulhos no grande barril. A sala. O rádio. O aquário em frente, porém afastado, da janela. Os peixes espada, maestria dos meus pais. Os suicidas. Os da maternidade. À noite, apagava a luz para deixá-los dormir, cansados de ir e vir. De frente para o corredor, a porta da rua, cuja tranca trancava sem chave e sempre me deixava do lado de fora. Triste, serviu pra ensinar que existia o vizinho, hábito que cultivei.
Simples, educado e gentil, sempre tive todas as portas abertas, exceto as dos corações feminis. Luciana foi embora. No mesmo recuo da entrada do prédio, vi sua partida. Sem beijo, sem nada. Conheci Natália, mas justificava que ainda namorava a ausente. Natália me ensinou a gostar de arte. Pai artista plástico. Ela também, é claro. Criamos jogos, jogamos. Foi embora. Fui embora. No dia da mudança, quis trazer um gatinho sarnento. Não pude. Mas trouxe um sentimento carente: de gente, de bicho, de rua, de amor. Agora, sentado à frente da tela do computador, procuro no meu quarto, da nova nova casa, tão sonhado, alguma poeira do concreto dos pátios e da rua. Alguma casca da tinta branca que banhava o interior da minha casa da infância.
Viagem
Por Dimas Gomez.
Nosso carro. Casados. Um grande, alto, espaçoso e prateado. Paramos num cantinho duma rua na praça. Cidadezinha mineira de interior. Cheia de autos estacionados mais pra lá. Coisa esquisita. Saí. Chegou uma senhora já pedindo licença pra entrar no carro. Surpreendentemente, minha ruivinha simplesmente abriu a porta e sailevantou levantossaiu. Deixou que a mulher manejasse o carro, desse uma volta em si, e estacionasse ao contrário. Gostou do carro. Perguntou quanto queríamos. Mas não está à venda! Como não? Aqui é a feira nacional de Não-sei-quê da Cidadezinha-de-nada! Mas que feira, que nada! O que vocês estão fazendo aqui, então? Ora, a rua é pública, minha senhora! A senhora, qual é mesmo seu nome? Raquel? Bem, Raquel, a senhora vai ter que me pagar o prejuízo! Quinze reais! Minha mulher já foi sacando a carteira. Peraí, madame! Quem vai ter que pagar é a senhora! Vem me incomodar e à minha mulher, que tá grávida assim do nada! Faz ela sair do carro, estamos de viagem, e ainda se acha no direito? Faça o favor de pagar a senhora! Eu quero uma polícia. A senhora vai pagar. Polícia! Não tem uma polícia que seja nesse fim de mundo? A mulher foi saindo de fininho, mas prometendo rebote. Demos um jeito de arrancar de lá. Que cidade de doidos!
Biografia Duma Navalha
Por Dimas Gomez.
Um menino enfiou agulha na bunda do barbeiro, que rasgou o pescoço do cliente num grito de agonia traseira. O tal sumiu como um diabinho, que propositadamente obrasse a morte do homem engravatal. Este sorria no momento da desgraça inimaginável. O sorriso desceu vermelho para o pescoço e a boca se abriu num horror pela metade. Da outra metade só o Céu sabe – porque é pra lá que os sentimentos puros vão, mesmo os terríveis. A alma do homem e a outra metade do horror ficaram na navalha, que passou de barbeiro em barbeiro sem fazer barba direito (a alma do dandy não sabia fazer, apenas mandar), desgraçando todos os barbeiros pelos quais passava. A lâmina foi trocada diversas vezes, mas não se saciava; antes, ressentia. A alma do engravatado tomara gosto pelo sangue e, duras como a alma daquele pobre diabo, vivia a rasgar sorrisos com elas. Cada um desses profissionais – entre os quais Machado encontrou um homem sincero, finalmente apagando a lanterna de Diógenes –, enxergavam a maldição no salão de barbearia e lá mesmo largavam a navalha perniciosa, até que um desses profissionais, assustado, a atirou pela janela (defenestrou, se preferir).
Um malandro, que a encontrou desamparada no meio da rua, na vida rasgada que levava logo lhe deu serventia e percebeu a vocação da danadinha, que parecia viva! Tinha alma e princípios! Exceto com os medrosos e desesperados: esses ela rasgava sem piedade. Ela só poupava os valentes. Dava o susto e já valia. Valente que é valente sabe a hora de dar no pé. Então serviu bem por muito tempo, até que um dia a sorte trocou as navalhas e o malandro foi se barbear com a sua diaba. O espanto que o estrago provocado no pescoço do dono foi tanto, que superou o horror e libertou a alma do granfino. Brasileiramente apertaram-se as mãos (do jeito que podiam duas almas degoladas), se abraçaram e cada qual foi para seu lugar no outro mundo. Ouvi dizer que um foi parar num escritório eterno e outro numa prainha molíssima…
COMIA LÂMPADAS
Por Dimas Gomez.
Uma menina de linhas densas no rosto, de coração bom e de alegria simples. Um rosto redondo de lua, uns traços orientais. Abraçados, nos encostávamos. Tomava-a, ora pelas costas, toda tocando levemente, ora pelo lado, nos apoiando. Suprimia qualquer desejo. Um toque sensual nada obsceno. Do gosto do corpo amigo, sem malícia. Amigos de rara amizade. Viajávamos num ônibus para algum lugar ao norte do Estado. Goiás, talvez. Nos conhecemos naquela parada.
Entramos numa lojinha de conveniência. Em perfeita harmonia, escolhemos algumas guloseimas. Não me lembro bem, mas pagamos, ou paguei, em perfeito acordo de notas e moedas. Compramos também algumas lâmpadas: podia faltar luz na pousada.
Sentamos juntos, para o meio do ônibus. Algum tempo da partida, ela transbordava sexo. Levantou a saia curta. As coxas clarinhas, a púbis delicada. Meteu a mão, mexia e tocava. Era público! Decidi arranjar o banheiro do ônibus. Concordou transdoidepassivamente. Arranjei briga com o povo do fundão: Um cara tomara a minha vez na merda. Ralhei com outro. Você é folgado, hein cara? Não! Você é que é folgado, meu! Você se acha, hein? Não me achava: tinha certeza. E enfiei esta: todos têm direito de ser filho da puta. Sou filho da puta, e daí? Você por acaso não é? Sou mesmo. Disse mesmo. E tá: o bolo-fofo calou a boca. De volta ao meio do veículo, mal conseguindo, encontrei o lugar vazio. Fui até a frente. O motorista lambia aqueles seios gelatinosos e dirigia.
Saturnina e furiosamente arranquei-a da cabine. Sentei-a. Você gosta mais de mim do que eu mesma. Puxei o saco de comidas. Encarcerada entre a janela e meu aborrecimento, tentava escapar por ela, embora sem ao menos abrir. Ficou quieta e voou. Peguei uma lâmpada. Primeiro, quebrei a abóboda com os dentes. Saía o argônio rarefeito e entrava o oxigênio maléfico. Evitando o filamento, fui quebrando os pedaços de vidro finíssimo e frio, um sorvete de rara espécie, para não cortar a boca. Sem erro no procedimento, utilizava as partes duras da boca contra as pontas, e as curvas contra os arcos dos pedaços. Mastiguei bem. Cuidava pra não machucar o céu, e descuidava pra que machucasse a língua. Suavemente, engoli e ruidosamente me entretive, provando a bile entre uma lâmpada e outra que o gosto do vidro provocava na faringe, totalmente moído. Como restos das guloseimas, sobravam bases metálicas e filamentos.
Muchedumbre colorada
Por Dimas Gomez.
Fomos encontrar uma terceira companhia. Erramos a estação como quem erra o sangue de veia, juntos como poucas vezes. Naquele instante, parei de ver o mundo. Monocromática, preta de pregas a saia e branca de pretos traços a camiseta, coloria-se levemente com uma fina blusinha branca de listas rojas y negras. Coisa de menininha. Sapatinho de boneca preto, enfeitada de meia arco-íris. Cabelos de psicodélico cobre. Desencontramos. Fomos para a estação Paraíso. Maltrapilho por dentro, bem arrumado por fora. Abarrotada, descemos a cumprir no pé. Dia de sol desagradável. Na saída, surpreendidos por morteiro que podia machucar um: algum idiota que não aceitava o arco-íris irradiante do dia que ela e a multidão viviam.
Em meio às monstruosidades daquela tarde exageradamente clara, redescobri como atingir a Paulista. Seguimos pela Avenida tomada de seres fantasmais, espectros insolentes do submundo, que emergiam para tomar o Mundo-do-sol como num apoteótico e carnavalesco dia das Bruxas. Ensurdecidos, íamos por entre os carros alegóricos que torciam a realidade de concreto e me faziam odiar a liberdade da infâmia. Fluíamos no coração econômico da América Latina, de trio elétrico em trio elétrico, transformando-o no visor de um rádio antigo, e no próprio rádio. Ela, ponteiro a passar as estações; depois, bailarina de caixa de música. Eu, melancolia. Com a sainha nos joelhos e o sorriso nos lábios, aqueles olhos enverdecidos me fitavam parado e aborrecido com uma Coca-cola na mão. Em meio à turbamulta, muchedumbre de grotescos gestos, sentia o peito comprimir ante à força das caixas monumentais.
Atravessamos a Paulista. Cansados sentamos. Ela brincava com uma camisinha feita bexiga (jamais confessarei quem encheu) na qual irritava esbarrar. No bolso, ingressos da Educação Sentimental do Vampiro. Dalton Trevisan para as tortuosas e perturbadoras horas futuras. Começaram a se movimentar os carros. Seguimos o alegórico-estação-de-rádio escolhido. Descemos a Consolação aos poucos. Tudo girava, contorcia, efeminava e desroupava sem sentido ao meu redor. Inferno, beirava e se atirava ao ridículo. Quieto, movendo o necessário para acompanhar minha dançarina, pensava em quanto aquele espetáculo não era gay. Procurava inutilmente na multidão o refinamento, a elegância e o estilo. Só encontrava o estereótipo, a zorra e a educação — esbarrões aos montes, nenhuma briga — festa de ogros e Feras. Minoria arrasadora, converti-me em sexo estranho, coisa grotesca, heterossexual.
Ela beijara demoradamente uma menina. Recusei veementemente o rapaz. Cumprido o papel de cordeiro sacrificial, coroar a noite com o Vampiro. Surpreendentemente, o teor da peça era ainda pior. Se algo havia de ridículo — e Trevisan, na pele de tão talentosos atores, sabia tornar ridículo o terrível —, havia ainda mais de perturbador. Dario insepulto e a vela sob a chuva fina, a menina estuprada, a puta banguela, a mulher que mata o marido violento. A voz angustiada da atora (sic) sulista. Perturbado, levei minha dançarina até em casa. Preferi esperar intermináveis horas no escuro terrífico daquela noite assustadora o ônibus no ponto vazio — estiquei o braço.