Seus Olhos
Se Capitu existiu, eu não sei.
Sei que existem uns olhos que mudam de cor,
uns olhos certos que não gostam muito de sol não,
que vivem um dia a dia de luz, intenso,
de um seco sertão que não é tão seco assim não.
Ainda mais porque o beijo molhado refresca, reaviva,
a pedra, pedra de rio, pedra de rim, a pedrada do seco sertão não dói em mim.
Loura pele dourada, porque a água dos teus olhos rega minh’alma, me cresce em verso, me salta em alegria e um desejo de paz… de rede, de varanda, de al-ta-ne-ri-a…
Simples, de campo, caerianamente,
sem soberba, sem dor, sem tristeza,
sem nada além de Ci.
Esse coração paulistano verga
frente o pendor de
ser tão sertanejo de amor,
do alto, altivo e altaneiro vigésimo quarto andar,
no úmido frio da Ipiranga co’a São João,
na Bela Vista do Bom Retiro:
Sedento da tua beleza de flor dourada
de ninfa sapeca, moleca danada,
gata arisca, gata brava,
eu bebo nos teus olhos e me aprumo,
eu-cinza, eu-negro, eu-pó, eu-fumo.
Gatinha Arisca
Você chegou arranhada
gata arisca
gata brava
novinha demais pra tanta dor.
Linda,
me deu a mão
cedeu a cabeça
confiou o corpo no meu abraço
deitou a alma na minha.
De pelagem nova,
os bigodes saindo,
quero te ver toda brincalhona de novo
Mais forte, mais ágil,
Mais minha.
Periga, periga mesmo.
Periga!
Periga mesmo gostar de um sabiá,
– pássaro vestido de vermelho,
quieto, de cabeça amarela,
que outro dia dormiu de leve no meu peito,
e sussurrou uma canção simples e familiar.
Verdade!
Diga ao Anjo, pássaro cabeça-amarela, bem-te-vi-beija-flor
(quando ele invadir a tua porta)
o quanto ele roubou meu desassossego,
pôs paz no meu coração,
e uma saudade fértil que vai até onde a vista alcança.
A olhos vistos brotam sonhos, promessas,
e sorrisos francos.
Bate uma brisa forte que arrebata o passado
E rompe numa saudade simples,
numa franca esperança de felicidade.
Mendigo Bêbado Fodido
Amarguei uma hora ontem, com um mendigo no chão, na Rua Martins Fontes (entre o Bar Estadão e onde ficava o Diário Popular), no frio, no meio dos abutres.
O SAMU não vinha.
O cara é morador de rua, bebaço.
Um branquelo azedo bateu nele de dentro do carro, na Martins Fontes, e foi embora.
Caiu no meio da rua, imóvel e desacordado.
Sangrando horrores.
Arrastaram pra calçada.
Liguei pro SAMU.
Confirme telefone. Morador de rua. Bêbado. Vítima de violência. Batida na cabeça. Consciente.
Chamada de emergência. 54 chamadas de prioridade máxima na madrugada.
Falei com a polícia civil. Deu uma olhadinha e foi embora.
Falei com a PM. Esse cara sempre dá problema. “Você é médico por acaso? É da saúde, pra saber que é caso de SAMU?” O pior é que eu trabalho na Saúde, seu PM do caralho.
O mendigo levantou e me pediu um real. Neguei mesmo. Pra chegar em casa, dei 10 pro taxista.
— My name is Wilson. I am australian. I need two reals.
— Actually… are you a teacher two?
If I get these two scumbags, I’ll kick their asses.
Ninguém roubou o chinelo dele. Ninguém levou o radinho dele, nem o fone. Nem ele, nem o sangue, nem a garrafa de vinho. Minto, a garrafa de vinho sumiu. E sobrou a de água, com três dedos no fundo.
A Educação, por Viviane Mosé
Viviane Mosé invoca Morin pra explicar a crise problema-solução (veneno-remédio) da educação. Vale a pena!
Sobre a Importância da Versão
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Cia do Miolo na Ladeira da Memória
Numa sexta-feira, passando às pressas pela Ladeira da Memória, me deparo com a Companhia do Miolo num fim de apresentação. Figurino, música, violões.
Saquei a Canon. Iam repetir o número! Comecei a cobrir. E não é que fizeram um musical inteiro? Enchi o cartão da câmera (a ponto de começar a apagar umas pra tirar outras) e o braço doía - não parei nem pra tirar a mochila das costas.
Abaixo, uma prévia das demais (Clique para acessar o álbum no Flickr.):
Reflexões sobre o fazer-nada
1.
Todos me dizem para falar menos e fazer mais, mas quem fala geralmente não faz. E ajudaria mais se não falasse nada.
2.
O que impede a ação, não sei se é medo, apatia, ou falta de fé.
3.
Numa mobilização, é fácil convencer os ingênuos e os crentes - que não são necessariamente os mesmos, mesmo que o crente frequentemente seja ingênuo e o ingênuo seja crente; o que acontece é que os demais não acreditam nos outros, ou não têm fé em si mesmos.
4.
O próprio reconhecimento
do próprio egoísmo
é forte indício
para não se acreditar em mais ninguém.
Pequeno Príncipe e o Elefante Fabricado

Fonte da Imagem: Facebook de Gilberto da Silva Francisco
A vida muda toda vez
que algo me acorda
que eu me recordo
que o elefante, mesmo que fabricado,
sempre cabe numa jibóia.
–
Copyleft: “Leva embora”
, como diz o @samadeu


